26 de novembro de 2013

AS DUAS CONTRADIÇÕES DO RUGBY PORTUGUÊS *

Trabalhei com o Zé Goulão no Direito durante muitos anos, e já nessa altura, mesmo enquanto jogador, ele revelava qualidades especiais que o apontavam como um futuro educador e treinador, o que veio a acontecer com naturalidade, numa época em que todos os treinadores saíam das canteras dos clubes...

Licenciado em Educação Física, antigo jogador de Direito, onde foi treinador até 1991, tendo sido campeão nacional e ibérico no escalão de juniores, teve ainda passagens pelo São Miguel e pela Escola Agrária de Beja, antes de ingressar no C.R. de Évora como coordenador técnico entre 1997 e 2003, período em que os chaparros alcançaram os títulos de campeões nacionais em juvenis e juniores, e de campeões ibéricos de juniores em 2000/01, e a equipa de seniores subiu à principal divisão do rugby nacional em 2002/03.


A nível nacional, Goulão foi treinador adjunto das selecções nacionais de juniores em 1986/87 e 1987/88 e fora de campo foi dirigente da Associação Regional de Rugby do Sul.

Hoje, vivendo no Baixo Alentejo, em Ourique, José António Goulão está afastado dos campos de rugby, mas continua a acompanhar a modalidade ao longe, e dá-nos agora a sua visão sobre alguns dos problemas que afectam o nosso jogo.


* José António Goulão
O desenvolvimento do rugby nacional assenta em duas contradições que impedem o seu desenvolvimento.

1. Litoral versus Interior

Geograficamente 80% (44 clubes) dos clubes portugueses situam-se numa faixa junto ao litoral desde Lisboa até ao norte do País. Um terço (18) situam-se em Lisboa e na zona da grande Lisboa até Setúbal. 
Mais de metade 52% (28 clubes) localizam-se na zona de Lisboa até Leiria. Apenas 20% (10 clubes) situam-se no interior do país desde Trás-os-Montes ao Algarve.

Para resolver estes desequilíbrios e aumentar o número de praticantes, o Rubgy Português necessita de um Plano de Desenvolvimento Nacional que deverá consistir prioritariamente no apoio a nível técnico dos clubes emergentes e de alguns da 2ª e de 1ª divisões e na ajuda da criação de equipas mais jovens de modo a garantir a continuidade da existência desses clubes. 

A grande dificuldade destes clubes do interior, é encontrar técnicos com conhecimentos adequados, que façam uma ponte com a Federação, que transmitam as metodologias adequadas de treino para jovens e adultos e que simultaneamente formem novos treinadores. 

Esse apoio deverá ser dado por técnicos qualificados da FPR, espalhados pelas regiões mais necessitadas, desenvolvendo um trabalho constante e no terreno, quer a nível dos treinos, quer na divulgação da modalidade e na captação de jogadores através do desporto escolar e no posterior encaminhamento para os clubes mais próximos dos jogadores interessados em progredir na modalidade.

Este trabalho já deveria ter sido iniciado aquando do “Boom” após o mundial de 2007, quando proliferaram inúmeros clubes por este país fora. 

Urge consolidar e desenvolver os que ainda existem.

2. Campeonatos com um número reduzido de equipas e do mesmo nível versus campeonatos com mais equipas e mais desequilibrado

Os Campeonatos Nacionais das diversas divisões devem alargar ainda um pouco mais o seu número de equipas (12/14). 
A curto prazo enfraquece a competição mas a longo prazo provoca um mais rápido desenvolvimento das equipas mais fracas, aumentando o número de jogos por jogador e proporcionando o contacto mais frequente com as equipas mais fortes, argumento este muito utilizado por alguns para aumentar o nível competitivo da nossa seleção, mas quando é utilizado para desenvolver o rugby nacional parece que deixa de ter expressão.

O rugby de sete é um bom exemplo onde Portugal está entre os melhores, porque desde muito cedo e, por característica destes torneios, compete tanto com equipas de topo como com equipas mais fracas.

O rugby já teve um papel muito importante na união de povos de diferentes raças e de condições económicas diferentes, porque não seguir esse exemplo e abrir mais a modalidade ao país?

12 comentários:

Gonçalo Duarte Silva disse...

José Goulão uma pessoa de grande carácter e grande conhecimento de rugby.
Para mim como jogador foi um enorme prazer ter o Goulão como treinador. O trabalho por ele realizado no CRE foi enorme.
Com ele fui campeão nacional de juvenis e campeão ibérico de juniores, e um 2lugar no torneio Tom Moris em Bruxelas.
Realmente este testemunho dele revela o estado do rugby em Portugal, concordo em toda a sua análise.
Um grande abraço amigo Goulão.

Gonçalo Duarte Silva, ex jogador do CRE

Anónimo disse...

O José Goulão merece-me toda a consideração, mas propor o alargamento da DH (e da I divisão) para 12/14 equipas é, na minha opinoão, completamente absurdo.

Teríamos na DH equipas que quando jogam foram nem conseguem levar 22 jogadores.

Em nome da demagogia BEM intencionada, perdeu-se totalmente a noção da realidade do râguebi português.

Pedro Martins

Anónimo disse...

Parece-me ser um artigo que não traz nada de novo, até um pouco absurdo o aumento de equipas. Não é isso que faz aumentar a competividade.

João Quintela disse...

Do Jose Goulão recordo, com saudade, de um “Tour” com a Seleção de Juvenis ao Pais Basco em 1984 (?). Deixo aqui um abraço.
Sempre defendi um Campeonato mais curto, com menos equipas de modo a aumentar o ritmo competitivo dos envolvidos. De qualquer modo parece-me que darei a mão à palmatória quanto ao desenvolvimento do Rugby Português como um todo, com os recentes alargamentos – a custos, obviamente, da falta de ritmo competitivo do nosso “core” de selecionáveis. No entanto parece-me que os 10+10 serão, nesta fase, mais que suficientes, pois antes de se pensar em alargar mais as divisões “de topo” devia ser dadas condições aos outros clubes para crescerem. E para isso teremos de ter fortes competições regionais, bem geridas e acompanhadas…só apos isso se deveria pensar em crescer de novo.

João Quintela disse...

Do Jose Goulão recordo, com saudade, de um “Tour” com a Seleção de Juvenis ao Pais Basco em 1984 (?). Deixo aqui um abraço.
Sempre defendi um Campeonato mais curto, com menos equipas de modo a aumentar o ritmo competitivo dos envolvidos. De qualquer modo parece-me que darei a mão à palmatória quanto ao desenvolvimento do Rugby Português como um todo, com os recentes alargamentos – a custos, obviamente, da falta de ritmo competitivo do nosso “core” de selecionáveis. No entanto parece-me que os 10+10 serão, nesta fase, mais que suficientes, pois antes de se pensar em alargar mais as divisões “de topo” devia ser dadas condições aos outros clubes para crescerem. E para isso teremos de ter fortes competições regionais, bem geridas e acompanhadas…só apos isso se deveria pensar em crescer de novo.

Anónimo disse...

Li e reli este artigo e deveria ser assim, deveria ter sido assim, se tivesse nascido de uma atitude pensada, racional mas isso em Portugal é muito difícil.

A seguir ao mundial de 2007 não se procurou sedimentar o rugby nacional, dar-lhe estrutura, o que que aconteceu foi gastar dinheiro nas "gorduras" foi aumentar o numero e estrangeiros (sempre com o argumento da competitividade) foi desenvolver escolinhas com pessoas pouco habilitadas mas que sacavam umas massas valentes aos pais (também eles a viver os golden days da nossa economia).
Quando a vaga de 2007 se começou a desvanecer e se entrou na "ressaca" poderia ter-se aproveitado isso para estruturar o Rugby e levá-lo a implantar-se no país mas não, o que se fez foi ir em busca de um novo apuramento para um outro mundial com base em jogadores sem qualquer ligação afectiva a Portugal e ao rugby português e claro está falhou-se porque nada estava estruturado, nem está.
Antes de se colocar em equação se a Selecção Nacional e competitiva ou não, deve-se perguntar se a base de recrutamento para a selecção é grande e de facto não é. Está restrita a 800 jogadores (DH e Primeira) mas como o Seleccionador não se dá ao trabalho de ver os jogos da Primeira, fica reduzida a 400 jogadores e se excluirmos os de fora de Lisboa ficamos reduzidos a 200 jogadores.
Esta base de recrutamento é curta para se ter uma selecção competitiva. A discussão nem deveria ser esta porque a Selecção Nacional deve ser sempre a consequência de algo e nunca a sua razão de ser como por aqui acontece.

Se em vez de se gastar dinheiro com a Selecção e os seus Franceses, se apoiasse a formação de clubes, a divulgação da modalidade no interior, a formação de técnicos e dirigentes, se fizesse persistentemente um trabalho de base (tal como o Judo, por exemplo, fez) talvez hoje tivéssemos não uns milhares de jogadores mas umas dezenas de milhares.
Se existissem Selecções, distritais ou regionais, onde regularmente os miúdos jogassem, se existissem estágios abertos a todos, talvez hoje o nível técnico e competitivo fosse maior mas no rugby nacional o único processo de selecção foi o dinheiro (se os papás têm dinheiro para pagar as mensalidades e escolinhas os putos treinam senão ficam de fora), se os núcleos de rugby criados foram sendo abandonados, não podemos esperar bons resultados.
Veja-se o que se passa hoje, quando temos a FPR a gastar, dizem-me, 250000eur. com a participação na Amlin e depois temos o rugby feminino abandonado á sua sorte e a formação no rugby e a sua divulgação entregue a alguns carolas, o que podemos esperar? um aumento competitivo do nosso rugby? claro que não, um entusiasmo de todos e um aumento do numero de praticantes? claro que não, os desenvolvimentos consolidados dão-se com pequenos passos e com pequenas vitórias mas essas não dão votos nas eleições da FPR, por isso as culpas não são só de quem está no topo da hierarquia mas de todos nós que neles votámos, sabendo que se privilegiava medidas populistas ao invés do verdadeiro desenvolvimento do rugby.

Os únicos clubes que ganham e que ganharam foram os de Lisboa.

Anónimo disse...

A primeira parte do comentário das 14.15 está muito bom. Ficámos maluquinhos com a ida ao mundial de 2007. Estava-se no ultimo período dum país rico a viver com dinheiro emprestado da Europa. Havia que aproveitar e por isso criaram-se escolas a rodos, muitas delas sem quaisquer estruturas físicas para funcionar com um mínimo de qualidade. ENGANARAM-SE OS PAIS. Claro que a ressaca foi as escolas começarem a minguar. E aí, os clubes da província que sempre tiveram escolas a pensar no aumento de atletas que chegassem aos seniores e não com a ideia de fazerem receita para mandar vir estrangeiros, são capazes de suportar melhor a terrível crise porque passamos. Depois também não aproveitámos em termos de comunicação social o fortíssimo impacto de 2007. A culpa aqui não foi só da Federação, mas também dos clubes. Finalmente, concordo com a opinião que a selecção, como o próprio nome indica, deve escolher dentro duma base grande de atletas seniores. SÓ TEMOS OS TAIS, 200, 400, ou na melhor das hipóteses 800. Querer ir a um Mundial com tão poucos atletas por onde escolher, só mandando vir de fora e colocar em "poisio" os atletas locais. É triste, mas esta é a realidade. Quanto ao aumento de 10 para 12 a DH e Primeira, não concordo minimamente. Só se forem 12 na DH em duas séries de 6 e 12 na Primeira igualmente em duas séries de 6. E isto só para os clubes poderem dizer que andam na DH ou na primeira, porque de resto como está está muito bem.

Miguel Ribeiro disse...

Corrijam-me os responsaveis mas eis aqui um levantamento superficial de alguns projectos de clubes ou escolinhas que morreram ou estao num estado vegetativo ou embrionario e pouco aberto a comunidade local por falta de apoio/investimento tecnico a nivel de treinadores e dirigentes e/ou por falta de apoio institucional da FPR perante as autoridades locais:

Pumas do Marco de Canaveses
ED Limiana (Ponte de Lima)
ER Vila Verde
Penafiel
Trofa
Mourisquense
Bejecas (Santa Maria da Feira)
Ericeirense
Vilamoura XV

se calhar existem muitos mais, ou estes nao merecem estar aqui, mas e a percepcao que tenho...

Ja para nao falar nos projectos na ilha da Madeira ligados a ADM Madeira, que coitados, devido a insularidade foram mesmo votados a um esquecimento de desterrados.

Anónimo disse...

Diz-se que existem em Portugal 800 ou 400 jogadores seleccionáveis é um absurdo e ridículo , assim como esta falta de consciência e realidade do que se diz sobre o rugby nacional e do favorecimento de Lisboa , clubes regionais e muitos com mais apoio que os da capital regista-se a estagnação e a falta de qualidade , fácil culpar o estado neste caso a FPR pelos insucessos e pela incapacidade de captar jogadores e ter modelos de treino capazes . Tempo demais passou em muitos deles e a qualidade muito fraca , é mais fácil culpar os outros pelos nossos próprios insucessos do que olhar para dentro . Em Lisboa a câmara não paga campos , nem dá dinheiro nem apoio os clubes ao contrário no interior .

Anónimo disse...

Se dizer que Portugal tem 400 jogadores potencialmente selecionáveis é um absurdo, devo dizer que só se for por excesso. Se assim for mais força ganha a tese de que o caminho não é investir tudo na selecção, sacrificar tudo para se ter uma equipa na Amlin e se ir ao Mundial. O caminho deve ser o sugerido neste artigo, claro que demora mais tempo, claro que nos arriscamos a não conseguir manter-nos no actual grupo do seis nações, mas quando regressarmos iremos fazê-lo muito mais sustentadamente e tendo uma selecção que representa a realidade do rugby nacional.

Pouco interessa saber se os clubes da província têm mais ou menos apoios do que os clubes de Lisboa, em termos financeiros podem ser mais apoiados (coisa que os clubes de Lisboa compensam largamente dado o facto do mercado para as suas escolas pagas ser muito maior do que na província) mas em apoio técnico da FPR esse é muito maior em Lisboa, basta ver quantos elementos dos clubes de Lisboa andam nas famosas academias da FPR e quantos da província por lá andam, isto acontece também porque custa dinheiro trazer os da província, porque custa dinheiro ter estas academias na província (daí a importância das selecções regionais).

Não ajuda igualmente ter um seleccionador nacional que não se dá ao trabalho de ver jogos da Primeira Divisão, não ajuda ter um staff técnico da FPR completamente desligado da realidade do Rugby nacional e focado numa realidade virtual para a dimensão do Rugby Português, que é a AMLIN (esta ida á esta competição até estaria bem pensada nos actuais moldes se o Rugby portugês tivesse a qualidade da Georgia ou Roménia ou mesmo Russia, mas não tem) ou e as idas aos Mundiais a todo o custo.

Tem sentido, agora que todos já perceberam que a qualidade do Rugby jogado estagnou ou regrediu, apostar na formação, na implantação regional no desenvolvimento sustentado.

Claro que alguns sobretudo em Lisboa continuam a achar que não, que o Rugby da capital é muito bom e eu pergunto se o Rugby em Lisboa é assim tão bom porque existem tantos estrangeiros nas equipas (excepção ao Direito e ao Belenenses)? se o modelo desenvolvimento é assim tão bom porquê recorrer a estrangeiros?

É tempo de pormos os pés no chão e olharmos sem paixões imbecis para a forma para onde levamos o Rugby.

Anónimo disse...

EXCELENTE PROPOSTA

DIVISÃO DE HONRA (14 EQUIPAS)

CRAV
CDUP
LOUSÃ
ACADÉMICA
CALDAS
CDUL
DIREITO
AGRONOMIA
BENFICA
TECNICO
BELENENSES
CASCAIS
MONTEMOR
ÉVORA

1ºDIVISÃO (10 EQUIPAS)

FAMALICÃO
BAIRRADA
AGRÁRIA
SANTARÉM
SÃO MIGUEL
SPORTING
BELAS
MOITA
V.SETÚBAL
LOULÉ

Anónimo disse...

Porque não uma DH com 24 clubes (LOL). Se estão alguns a brincar nos comentários, então brinquemos todos.