Foi um fim de semana negro para as cores nacionais, nas competições além fronteiras em que participámos...
Em Ameland, na primeira etapa do circuito europeu de sevens feminino, as nossas atletas mais não conseguiram que duas singelas vitórias sobre duas das piores equipas em presença (Moldávia e Alemanha), claudicando às mãos de todas as outras e servindo apenas de consolação o facto de terem conseguido permanecer no segundo nível das equipas, mas perdendo dois lugares na classificação, na crua verdade dos números.
Quanto aos Lobos, a elite do rugby nacional, a participação no Nations Cup revelou-se um completo desastre, com três derrotas em três jogos, mas - o que é pior - sem mostrar potencial para evoluir, nem capacidade para reagir.
Ou seja, no plano dos resultados, o ambicioso Portugal, que se passeia em bicos de pés nos círculos internacionais para que possa ser notado, valeu pouco mais que zero...
Mas existe algum mal em ser ambicioso? Não!
O mal está quando a essa ambição não corresponde qualquer análise da realidade, nem é acompanhada de uma política desportiva que a justifique...
Podem acreditar que imagino muito bem como os nossos jogadores e jogadores, técnicos e dirigentes se sentem neste momento, ao verem que, afinal, em relação ao comboio dos nossos pares, nós ficámos no mesmo lugar e os outros andaram em frente...
E afinal, o que devemos pensar, o que devemos dizer em relação a tudo isto?
Contrariando uma prática habitual de lançar jogadores e técnicos às feras, o Mão de Mestre não embarca nesse jogo - isso não passa de culpabilizar o mensageiro, deixando os autores da mensagem, tranquilamente, no remanso dos gabinetes...
Mas também não vale a pena, àqueles que só esperam por uma critica a esta direção, pensarem sequer que o passado foi esquecido - Amado da Silva e seus colaboradores têm muitas culpas, mas a direção encabeçada por Dídio de Aguiar não lhe fica atrás.
A grande diferença entre uma e outra, é que Dídio não tomou as melhores decisões em conjunto com mais meia dúzia de diretores, e Amado da Silva representa um comando de voz única, que se serve dos colaboradores apenas para encherem pneus - ele é o quer, pode e manda, da nossa pobre federação.
Claro que Amado da Silva não tem culpa do poder que lhe puseram no colo, isso é resultado de uns Estatutos que não fazem qualquer ideia do que é - ou devia ser - a administração do rugby em Portugal, nivelando tudo pelas tabelas futebolísticas que tão maus resultados também vão dando no reino da bola redonda.
Ou seja, em termos conceptuais não existem diferenças entre a gestão Dídio de Aguiar e Amado da Silva, e o problema é que ela se revela diariamente desajustada às necessidades do rugby nacional.
Um e outro sustentaram a sua obra no sucesso da nossa seleção nacional, o primeiro não tendo a frieza para entender que um apuramento como o conseguido em 2007 muito dificilmente se repetiria, o outro não tendo nem a coragem nem a capacidade de alterar aquela não-política, e embarcando apenas na gestão da continuidade.
Porque uma coisa é dizer em período eleitoral que se vai dar atenção ao rugby regional, ouvir os clubes e decidir com eles, introduzir um lote de medidas desportivas, mas depois, na hora da verdade, apenas lançar uma série desconecta de medidas experimentais, que - sem qualquer excepção - acabaram todas
rejeitadas e arrumadas numa gaveta.
Não vale a pena desenvolvermos este tema, apesar de termos a noção que muito se poderia ter feito, e apenas não se fez por puro autismo e injustificado autoritarismo - mas o que vale a pena é sugerir o lançamento de uma análise cuidada do que deve ser, que caminhos deve tomar, o rugby nacional.
Será que a orientação - nem me atrevo a chamar-lhe política - de tudo sacrificar às seleções nacionais, como se o rugby português nascesse delas e não o contrário, se justifica e deve ser continuada?
Será que a enorme produção teórica dos técnicos ao serviço da federação deve ser mantida, ou se deve procurar antes uma prática que leve ao continuado largamento da prática da modalidade, não deixando, no entanto, de dar condições de trabalho às seleções nacionais?
Porque somos inteiramente contra o que aconteceu nos anos a seguir ao 25 de Abril, quando vingou uma ideia que todas as equipas eram iguais, que os vencedores não deviam ser homenageados, e que as seleções nacionais não passavam de excrecências da burguesia...
E porque somos inteiramente contra o que está a acontecer agora, quando se condiciona e restringe toda a atividade do rugby português aos programas das seleções, como se todos não passassem de meros servidores dos interesses daquelas equipas nacionais.
Existe um mundo entre estes dois extremos, e qualquer deles apenas contribui para o desaparecimento da nossa modalidade, um por excesso de basismo, outro por excesso de elitismo...
Acusar os jogadores ou os técnicos sobre o mau momento que atravessamos, é tapar o sol com uma peneira, e serve apenas para garantir a quem está no leme, a viagem de vitória em vitória (sobre os "culpados") até à derrota final (da modalidade).
Como Amado da Silva disse antes do Nations Cup ao Jornal Público, ele não está satisfeito e exige resultados, mas a verdade é que a presidência da FPR sai, dia a dia, mais fragilizada desta importância desmedida que é dada às seleções nacionais, em desfavor da atividade nacional, do desenvolvimento dos clubes e das regiões - porque a memória das pessoas, muitas que constituíram a sua base eleitoral, não deixa esquecer as promessas de apoio ao rugby regional, às seleções regionais, aos programas de apoio aos clubes, ao desenvolvimento dos sevens, enfim, um conjunto de promessas que fizeram muita gente acreditar que as coisas iam mudar...
Mas afinal, mudaram algumas pessoas, mas a substância continua a mesma...
Por isso, vir agora atacar jogadores e treinadores, quando nada se fez para criar uma sólida base para o desenvolvimento da qualidade, é uma fuga para a frente que nunca nos irá conduzir a novas aventuras mundiais, mas apenas ao consumo de recursos que mais valia serem utilizados de acordo com a vontade, os interesses e as necessidades dos clubes...
Exemplos do que acabo de dizer, são diários, e apenas vou referir dois, um por ser bem atual, e já o termos abordado na semana passada, o outro porque tememos que quando Amado da Silva disse que queria ouvir os clubes, esteja a agir como agiu em 2010, sobre a mesma matéria, ou meses mais tarde sobre a organização do calendário da Divisão de Honra - ou seja, ouviu mas não ligou a ponta dum corno!
Onde está o calendário provisório para a próxima época, que deveria ter sido tornado público no passado dia 31 de Maio?
Onde estão as respostas às sugestões de alteração dos regulamentos desportivos que alguns clubes enviaram à federação?
Ou seja, a grande diferença entre Dídio e Amado, não é aquilo que eles fazem, nem sequer aquilo que eles dizem que fazem - aí, os dois funcionam pela mesma bitola, não dando qualquer importância ao que os clubes (que não os seus) dizem - mas sim o maior e continuado descrédito internacional que, com excepção dos sevens masculinos, as nossas representações nacionais vão passeando por esses campos fora...
É tempo de deixar de olhar para a barriga e tratar do rugby interno, do rugby dos clubes e das regiões, com a importância que ele deve assumir no desenvolvimento global do rugby português - ou seja, deixar de ser um sub-produto levado a reboque pelas seleções nacionais, para passar a ser a própria essência do nosso rugby, do qual surgem as seleções, sejam regionais, sejam nacionais...
Foto: IRB