15 de fevereiro de 2016

SEM ESTABILIDADE NA FORMAÇÃO ORDENADA SUCESSO É IMPROVÁVEL

Portugal não conseguiu evitar uma vitória folgada da Geórgia por 3-29 na segunda jornada do Europeu das Nações, apresentando-se com um XV que apesar das alterações em relação à semana passada em Cluj, não foi capaz de suster a enorme vantagem dos Lelos nas formações ordenadas, e a partir daí e aos poucos, em todos os aspectos do jogo.

Começou bem Portugal, mas isso não impediu que o resultado ao intervalo já fosse favorável à Geórgia por 3-15, com dois ensaios dos visitantes e um cartão amarelo dos visitados no registo,  e uma solitária transformação de um pontapé de penalidade a alegrar a assistência lusitana.

Mas a assistência georgiana, em número significativo, teve mais motivos de alegria no segundo tempo, quando os Lelos consolidaram a sua superioridade e marcaram os dois ensaios que faltavam para garantir aquilo que tinham ido buscar a Lisboa - a vitória com ponto de bónus, que lhes deu a liderança isolada da tabela classificativa.

A história do jogo é curta, não vamos sequer tentar fazer uma análise detalhada do que se passou minuto a minuto, e entendemos o que Ian Smith está a tentar fazer, e os problemas que se levantam com a convocatória de jogadores que não podem cumprir todo o ciclo de treinos com o grupo de trabalho, por jogarem e viverem noutro país, nomeadamente em França.

Mas a verdade - e sem qualquer desvalorização da dedicação e empenho dos que estiveram em campo - é que a tremenda pressão a que a nossa formação ordenada esteve submetida tem que ser reavaliada e medidas têm que ser tomadas, sob risco de não conseguirmos o nosso único objectivo na participação no Europeu deste ano - que acumulando com a pontuação do anos passado, estejamos livres da despromoção.

Portugal tem neste momento a disputar as principais competições de França, um conjunto de jogadores que poderá sem sombra de dúvida ajudar a resolver esse problema, e não os utilizar porque não estão entrosados com os outros, não parece razoável.

Tudo tem que ser visto em função do nosso objectivo, que afinal passa apenas por não perder na Alemanha, garantindo assim a permanência na Divisão 1A do Europeu, e deveria ter sido nessa perspectiva que a equipa deveria ter sido preparada - não sei se foi ou não esse o critério seguido.

Mas sei que a impossibilidade de integrar jogadores que jogam em França no conjunto, numa semana, foi alegado para justificar a ausência de alguns jogadores que poderiam ter sido importantes nas duas primeiras partidas, e que serão provavelmente fundamentais no jogo em Hannover, no dia 27 deste mês.
E se uma semana é pouco tempo para fazer  a tal integração, então que os tivessem chamado para se juntarem ao grupo de trabalho nas semanas antes dos jogos em Cluj e em Lisboa, mesmo que não fizessem parte da lista dos 23 de cada um desses jogos.

Dessa forma, para o jogo da Alemanha, esses jogadores já teriam três ou quatro semanas de trabalho com o grupo, e como eles apenas viriam para jogar, esse tempo seria mais do que suficiente, já que apenas se trata de um problema de integração...

A menos, claro, que haja outras justificações que não sejam do domínio público.

Mas uma coisa é certa - se esta equipa tiver uma base de trabalho sólida, que permita o desenvolvimento do jogo a "andar para a frente" e não a recuar - o resultado será com certeza positivo.

É difícil apreciar uma equipa que sofreu o que a nossa sofreu nas formações ordenadas, e ainda mais difícil encontrar expressões positivas no desenrolar da partida, mas em abono da verdade deve-se dizer que isso aconteceu, mais vezes do que o resultado pode anunciar.
Portugal teve muitos bons momentos, dos quais se destacam os primeiros 30 minutos do encontro, que apenas se perderam a partir do primeiro cartão amarelo, quanto a nós absolutamente indevido, já que o pilar esquerdo da Geórgia passou todo o jogo a "empurrar para dentro" colocando ilegalmente o nosso pilar direito sob uma tremenda pressão.

Claro que Bruno Rocha não aguentou aquela pressão, mas acredito que, em França, Portugal tem pelo menos duas opções que não seriam sacrificadas daquela maneira - e isto, repito, sem qualquer desmerecimento ao trabalho e sacrifício da nossa jovem primeira linha.
Mas faltou-nos peso, experiência e "quilómetros" nos ombros dos nossos jovens guerreiros, e que Anthony Alves, Francisco Fernandes, ou mesmo Tony Martins - que já representaram Portugal e têm menos de 30 anos e mais de 25 - com certeza nos trariam.
E, além destes, claro!, Mike Tadjer Barbosa, que jogou menos de meia hora, entrando quando o jogo já não tinha história, e é hoje um dos melhores jogadores portugueses em actividade.

Bruno Medeiros, 22 anos, Duarte Diniz, 20 anos e Bruno Rocha, 23 anos, e mesmo Francisco Domingues, 23 anos, são jovens excepcionais, mas precisam de tempo para poderem encarar as exigências da Divisão 1A com serenidade e sem precipitações - eles são os primeiros a precisarem da geração imediatamente anterior para evoluírem e crescerem.

Venha essa geração anterior de onde vier, desde que seja constituída por jogadores qualificáveis - nos termos regulamentares da World Rugby, da Europe Rugby e da FPR, e da legislação portuguesa - para representar Portugal.
Não o fazer, sem outra justificação que não seja a falta de tempo para os "integrar", é errado.

Não querendo entrar em apreciações individuais, que habitualmente não fazemos, é justo que
façamos hoje uma correcção à apreciação que fizemos no ano passado quando dissemos que
disciplinarmente Francisco Pinto de Magalhães precisava dominar o seu génio, para mostrar o que sabe e pode fazer, e tecnicamente precisava de ser mais rápido na transmissão em especial a partir de rucks, para assegurar a continuidade do jogo.
Pois o agora capitão da nossa equipa, fez isso mesmo, portou-se de forma exemplar, comandou a equipa, não se deixou cair em provocações, e a equipa beneficiou extraordinariamente com isso.
Fez um excelente trabalho, quer como capitão, quer como médio de formação, não perdendo tempo desnecessário na transmissão e conseguindo em muitas situações aliviar a pressão através de pontapés oportunos e bem colocados.
Pinto de Magalhães não fez parte do problema, e fará certamente parte da solução.


OS OUTROS JOGOS DA JORNADA
Em Madrid a Espanha sofreu uma derrota por três pontos (18-21) que lhe dá mais um ponto de bónus e a coloca ao abrigo de qualquer possibilidade matemática de despromoção, quando faltam três jornadas para o final da dupla época que conta para o efeito.

Ao mesmo tempo, na Rússia a Alemanha sofria uma pesada derrota por 46-20, embora seja de realçar os 20 pontos que marcou e que podem constituir uma ameaça para as pretensões lusitanas à manutenção.
CLASSIFICAÇÃO EUROPEU 2016


CLASSIFICAÇÃO ACUMULADA 2015-2016

A PRÓXIMA JORNADA
No dia 27 deste mês, dentro de duas semanas, disputa-se aquela que é para Portugal a jornada mais importante de toda a competição, com a deslocação dos Lobos a Hanover, para enfrentar a Alemanha.
Uma vitória portuguesa, significa automaticamente a manutenção, pois ninguém em seu perfeito juízo admite que os alemães vencerão a Espanha e a Roménia com direito a ponto de bónus.

Sábado, 27 de Fevereiro, horas a confirmar
Alemanha - Portugal, Hannover
Geórgia - Espanha, Tbilisi
Roménia - Rússia, Cluj

Fotos: Rugby Photos by Luis Cabelo

3 comentários:

Unknown disse...

Manel Cabral,

Compreendo a observação que faz à 1ª linha, sendo que embora numa primeira fase concorde consigo, não posso deixar de louvar o esforço de Ian Smith em fazer uma selecção com - se me permite- "prata da casa". O gabarito fisico não explica tudo, relembro, na altura da qualificação falhada para o mundial de 2015, Portugal integrava na sua primeira linha jogadores como Juan Murré, Cristian Spachuck ou o próprio Francisco Fernandes como tão bem referiu; e mesmo esses "andaram para trás" tanto contra Geórgia ou até mesmo Espanha. Por isso lhe pergunto, será mesmo um problema individual ? (claro que com mais 10kg aguentaríamos mais 10mins) ou um problema de base (a ver, de estrutura, na formação, face à pouca importância dada às formações ordenadas nos escalões de formação. A título de exemplo dou-lhe os pilares Ben Robinson da Austrália ou até mesmo WP Nel o melhor nº 3 da actualidade, cujo gabarito não é decerto um cartão de visita.

Gostaria que me elucidasse quanto a outro assunto, a ausência de José Lima.

Em suma, a primeira linha teve dificuldades, mas penso que temos uma 3a linha bastante promissora, não sei, no entanto como é que não se alongou sobre a falta de soluções dos nossos 3/4s, que demonstraram uma falta de soluções gritante mesmo em fases de conquista sólidas.

Atenciosamente,

Francisco Meireles

Leo Topeleven disse...

Nao comprendo porque a equipa technica nao chamou os lusos de França.

O Tadjer Barbosa (excelente jogadore) estava no banco e os otros (J.Bardy, C.Spachuk, S.Marques, F.Fernandes, A.Beco, J.Sousa, J.Lima, D.Penalva, C.Gomes Sa, etc...) nem foram chamados.
Ainda ha otros (G.Moise, A.Alves, T.Martins, etc...) que deriam força ao nosso XV.

Prontos, os jovems e excelentes jogadores da nossa Divisão de Honra tems preciso dos antigas para ainda aprender.
Um bom XV é composto por "antigos" e "jovems" e Portugal tem a sorte de ter os dois. So falta aproveitar!

Claudio disse...

Coesão é importante. Claro que é difícil para um jogador que treinou a semana inteira ver outro, que chegou pouco antes do jogo, passar-lhe à frente. Mas será que a coesão não nasce, antes de tudo, na vitória de um grupo, no sucesso de uma equipa ? Acho que qualquer Lobo antes quer ganhar no banco que perder em campo... Visto as nossas falhas em algumas zonas do jogo, há jogadores que, se disponíveis, sempre deveriam ter lugar no XV inicial, se tenham eles mesmo juntado ao grupo na véspera do jogo... Tadjer, Diogo Torn, Fernandes, Spachuk e até mesmo Domingues que me parece muito pouco utilizado, apesar de qualidades físicas bem acima da média.

Sem pragmatismo, com sentimentos e excesso de compromissos, não vamos a lado nenhum.