19 de janeiro de 2014

JOSÉ GOULÃO FALA DA ORGANIZAÇÃO REGIONAL *

* José Goulão
No seguimento do meu artigo publicado “As Duas Contradições do Rugby Português”, venho através deste novo artigo expor um hipotético plano de desenvolvimento do rugby que abrange todo o país e que é perfeitamente compatível com o já existente, mas que considero fundamental para um desenvolvimento mais sólido e equilibrado.

Tenho desde há muito tempo esta ideia e por diversas vezes tive tentado a divulgá-la junto de elementos com responsabilidades na Federação, mas achei que poderia ser considerado inoportuno e simultaneamente acho este plano tão óbvio que só nunca se realizou por as diversas direções da Federação não o quererem executar por estabelecerem outras prioridades, ou por acharem ser demasiado oneroso para o orçamento da FPR.
Mas não é!

E, suponho que não porá em causa as prioridades definidas por qualquer Direção.
Terão que haver alguns ajustes, é certo, que se poderão conciliar perfeitamente com os interesses internacionais e o plano de desenvolvimento já existente.

Tenho estado afastado da ribalta do rugby nacional, no entanto, considero este facto ser uma mais valia para a visão que tenho do rugby a nível nacional.
Acumulo experiência como técnico de um clube de Lisboa e de outro no interior do país e sei do que os clubes do interior necessitam.
Acompanho as notícias do rugby basicamente através dos blogs, Mão de Mestre, XV contra XV e pouco mais, porque as notícias na imprensa sobre o rugby são nulas ou quase nulas..

Considero que o apuramento e a nossa participação no mundial de 2007 foi uma aposta ganha a nível internacional, mas não completamente aproveitada para a divulgação do rugby e no aumento do número de praticantes e de clubes no país.
Muitos clubes surgiram, mas não houve o apoio federativo (traduzido em apoio técnico efectivo) necessário para a criação de escalões jovens e posterior consolidação.
Apostou-se muito na actividade internacional em detrimento do desenvolvimento do rugby nacional.
Torna-se difícil atingir metas de nível internacional com alguma regularidade se não houver uma boa base de recrutamento.
Considero que não soubemos agarrar e desenvolver o “boom” pós mundial de 2007.

O panorama atual do rugby nacional é o seguinte: imaginemos o mapa de Portugal onde existe uma grande concentração de clubes na zona de Lisboa e depois os restantes clubes espalhados ao longo da zona litoral de Lisboa até ao norte do país.
Nos restantes dois terços do País, Trás–os-Montes, Beiras interiores, Alentejo e Algarve, situam-se 2 a 3 clubes com tradição no panorama da modalidade e mais 6 a 7 clubes recentes pós mundial 2007, os chamados emergentes, onde em alguns deles só existe o escalão sénior.
Estes clubes, na sua generalidade, necessitam de apoio técnico urgente para a consolidação e criação de novos escalões jovens!

O Plano de Desenvolvimento que proponho é um plano muito simples que tem como objetivos a médio prazo:

a) O aumento do número de praticantes.
b) A criação de novos clubes.
c) Continuar com a divulgação da modalidade junto das escolas através de um projecto tipo “Nestum rugby”.
d) Incutir os valores e o espírito da modalidade junto dos jovens jogadores, treinadores e dirigentes.

Para a concretização destes objectivos é necessário que o País seja dividido em 5/6 regiões (Minho/Trás-os-Montes/Beira Litoral/Beira Interior/Alentejo e Algarve) e que cada região tenha pelo menos um técnico com funções muito específicas de desenvolvimento do rugby a tempo inteiro ou parcial para a realização do Plano.
Ora, a FPR e as Associações Regionais possuem recursos humanos que poderão ser canalizados para essas funções.
No entanto, para as regiões do interior são necessários técnicos que residam na região para que o trabalho a desenvolver seja mais eficaz.
As funções desses técnicos regionais – em colaboração com um responsável da organização/administração – seriam:

a) Divulgar o rugby nas escolas através de acções de formação junto de professores e alunos no seguimento do projecto “Nestum Rugby”.
b) Apoiar os clubes existentes a nível técnico, quer a nível de treinos, quer na formação de treinadores, quer na criação de mais escalões jovens e incutir junto dos mais jovens e adultos a maneira de estar muito própria do jogador de rugby.
c) Realizar pontes entre os clubes e a FPR na vertente técnica (trazer treinadores nacionais, directores técnicos, jogadores ou ex. jogadores internacionais para acções junto de jogadores e treinadores).
d) Apoiar e ajudar na criação de novos clubes.
e) Encaminhar jovens talentosos e com gosto pela modalidade detetados nas escolas para junto dos clubes mais próximos.
f) Ajudar na organização de encontros regionais.
g) Proporcionar acções de formação para jovens árbitros.

Os Recursos materiais básicos necessários seriam:

a) Viatura da FPR para deslocação.
b) Material para divulgação da modalidade.

Gastos mensais prováveis:

a) Gasóleo para as deslocações.
b) Remunerações de técnicos regionais a tempo inteiro ou parcial (caso haja contratações de novos técnicos).

Os gastos a inserir no orçamento anual da Federação iriam depender das suas possibilidades financeiras e da sua política de desenvolvimento.
Poderia ser um gasto maior se houvesse necessidade de contratações externas aos recursos humanos da Federação, ou menor, se se valesse da prata da casa onde cada técnico regional teria que desenvolver um trabalho com objectivos anuais bem definidos, concretos e realistas conforme a região a desenvolver.












       

12 comentários:

Luís Canongia Costa disse...

As ideias aqui apresentadas são louváveis, e nada a elas há a opor.

Mas têm um problema básico: o financiamento.

O "Nestum Rugby" acabou, restando o Desporto Escolar. A verbas concedidas à FPR para o desenvolvimento regional são relativamente reduzidas.

O grande trabalho a desenvolver tem de ser dar visibilidade local à modalidade e às suas iniciativas, e assim atrair as autarquias e os empresários locais, e com eles conseguir os meios financeiros para dar sustentabilidade à modalidade.

A FPR tem um bom plano de formação, que permite dotar os clubes do devido enquadramento técnico, se estes apostarem na formação.

O caminho não pode ser só estar à espera que a FPR faça algo por nós, mas nós fazermos algo pelo rugby, com iniciativa e dinamismo - localmente.

Anónimo disse...

Boa Tarde

"A FPR tem um bom plano de formação, que permite dotar os clubes do devido enquadramento técnico, se estes apostarem na formação".
Que apoios são estes? faço esta pergunta pois penso que a resposta a ela será vital para se perceber como está actualmente a ser trabalhada a formação.
Uma segunda pergunta: Está este plano e estes apoios a ser postos em pratica? por vezes entre ter um bom plano e ele estar a ser posto em pratica, vai uma distancia assinalável.

Nunca se conseguirá perceber como poderá ser o futuro sem ter a noção exacta de como está o presente.

Será que o Luis Cannogia da Costa nos pode esclarecer?

Anónimo disse...

Sim, as ideias são boas, não sao totalmente novas. Mas claro sem dinheiro....

Mas algumas mudanças de politica, coisas simples, seriam importantes para o desenvolvimento do rugby nacional. fazendo quase o que se tem feito até aqui.

1. A formação de treinadores, tecnicos, arbitros, diretores, etc. continua a ser um dos pilares mais importantes. Quanto mais pessoas com ligação ao rugby tanto melhor. Existem milhares de jovens com formacao superior em desporto, desempregados... começar por aqui seria uma possibilidade...

2. As seleccoes nacionais (nos diversos escaloes) sao a base impulsionadora do desenvolviemnto do rugby no país. Numa primeira convocatoria devem ser chamados jogadores de variados clubes, mesmo nao sendo os melhores. Isso cria impacto local e em cada clube regional. Um jogador que vá à seleccao de um clube pequeno, é a imagem dos jovens jogadores desse clube... pensarão os outros, EU TAMBÉM TEREI ALGUMA HIPOTESE NO FUTURO.

3. Existe dinheiro nos Fundos Comunitários. Não no QREN mas sim a nivel europeu. Dinheiro para o desporto. É preciso especialistas que os possam trazer para Portugal e neste caso para o rugby. eu sei do que falo. Algo como o Nestum (outro nome claro)teria hipotese de ser financiado. Existe financiamente ate para a mobilidade de atletas, em estagios na europa.

4. Não me parece que os clubes precisem de dinheiro. pelo menos os mais pequenos. Se resolverem os problemas do TRANSPORTE E EQUIPAMENTOS seria muito bem. aqui ideias precisam-se.

5. Os clubes precisam fundamentalmente de jogadores jovens, nos escaloes jovens. Isto é fundamental para os clubes regionais. É preciso muito mais promoção nacional do rugby. Ideias precisam-se....








Anónimo disse...

e que tal acesso por canal aberto a jogos do campeonato nacional por exemplo na rtp 2 (nem que se comece com o domingo desportivo ou esse tipo de programas de resumos do fim de semana) ?nem todas as pessoas têm acesso à sporttv, e dever-se-ia tornar o rugby um desporto mais ao alcance de todos..por outro lado, a sporttv e também um canal público poderia fazer o mesmo sem qualquer tipo de custos para além de pedir a um comentador que explique (carácter mais didáctico para os que não entendem )e comente a partida visto que como referiu o Sr. Manuel Cabral numa publicação da página do facebook, todos os jogos da DHonra estão filmados, bastava a sporttv pedir aos clubes os resumos e elaborar pequenos resumos das partidas, começava-se a divulgar o rugby nacional sem grandes custos..à moda antiga como fazia cordeiro do vale, era um ponto de partida interessante a meu ver
o único possível inconveniente será talvez a adesão a este tipo de ideias por parte desses canais

Anónimo disse...

E quando havia dinheiro? Quando havia, antes o último projecto Nestum, o projecto As Escolas do Meu Clube?

Quantos clubes aproveitaram esse projecto? A grande maioria não quis saber disso para nada. Preferiram e preferem queixar-se, dizendo que não há uma aposta na formação.

Dos países em que o rugby tem pouca expressão, poucos ou nenhum tiveram programas como esse e como o último programa Nestum (ao qual os clubes também não ligaram nenhuma).

Quando os clubes dizem que querem uma maior aposta na formação, concretamente o que é querem?

Anónimo disse...

Faltam ideias e cooperação com os clubes, a federação anda distante.

Hoje Faleceu um Grande guerreiro André silva do oeiras, ex-Belas e ex-internacional de camadas jovens pela selecção. Descansa em paz André. A luta de 2/3 anos chegou ao fim, lutou sempre e muito.

João Quintela disse...

Parece-me que as ideias são todas louváveis, mas acima de tudo são isso mesmo; ideias. O que parece claro destas ideias é a necessidade de diminuir muito mais as zonas de trabalho, criar várias mini-regiões. Concordo. Localmente pode-se trabalhar muito mais facilmente, rápido e barato que a uma escala maior. Sempre achei estranho o facto de os miúdos SUB14, 16 e 18, ou jogarem Sevens, ou para jogar 15 terem de o fazer a nível nacional (agora reduzido para regional). Poderia ser, onde houvesse essa capacidade ainda mais regional…depois disso poderia haver equipas maiores, grupos de equipas, equipas/seleções regionais, etc, - várias equipas pequenas a alimentar grupos maiores, sem os jogadores perderem os “vínculos” aos clubes originais.
Defendo há muito uma muito maior intervenção das AR’s (Associações Regionais) na gestão do rugby local. Tem sido feito algum trabalho, praticamente sem meios, mas poderia e deveria ser feito mais e melhor.
Ainda este ano propus no CRRC (Comité Regional do Rugby do Centro), treinos conjuntos entre vários clubes – por determinado escalão. Pouco são os clubes emergentes que tem 18 jogadores disponíveis para um treino de formação ordenada, por exemplo, enquanto em conjunto seriam 3/4 treinadores apoiados por um técnico da FPR/CRRC a fazerem um belo trabalho na formação ordenada…
Outra área onde se poderia dar mais apoio aos Clubes emergentes e/ou pequenos seria na logística, com as AR’s a trabalharem centralmente, representando mais clubes, atletas, nas relações com Instituições Publicas e Privadas. Ou a negociar valores globalmente com uma empresa regional de transportes, ou a negociar regionalmente equipamentos com uma empresa da área? Uma espécie de “central de compras” regional.
Mas para tudo isso funcionar toda a base da pirâmide teria de estar disposta a trabalhar em conjunto, de trabalhar com vista a um “bem comum”, por vezes pisando os próprios interesses. E é ai que a porca torce o rabo, pois os clubes não gostam que nos digam como gerir o nosso “quintalinho”, pois estamos todos cheios de razão, com os Egos inchados e não admitimos certas coisas que seriam necessárias para chegar a um patamar mais elevado….
E contra mim falo pois os dois clubes da minha cidade nem se falam…
E seria também necessário que a direção da FPR optasse e apoiasse esse caminho, que confesso não vejo a acontecer nem agora nem num futuro próximo…
Isso só funcionaria com todos os envolvidos a remarem para o mesmo lado, coisa que como sabemos, é rara em Portugal…

Anónimo disse...

As condolências aos familiares e amigos desse râguebista.

Quanto à cooperação com os clubes, não percebo o que é dito. Aparentemente, não faz sentido.

A federação, que eu critico, anda distante?!!!

Será que os clubes nem sequer perceberam que quem organizava esses projectos era a ARS e não a FPR?!!!

Será que não sabem que a ARS (com a qual eu nada tenho, nem tive a haver) andava atrás dos clubes pedindo-lhes para aderirem ao projecto As Escolas do Meu Clube e que, com raras excepções (Montemor, por exemplo), os clubes se estavam completamente marimbando.

Será que não sabem que, exactamente pelo desinteresse da esmagadora maioria dos clubes, teve que ser criado um novo projecto que já não contava com a colaboração dos clubes (o último Projecto Nestum)?

Pergunto novamente: em relação à formação, concretamente, que apoio é que os clubes querem?

Proponho que se fale claro e que se acabem os choradinhos.

Anónimo disse...

Só um pequenino promenor. Para começar algum projecto de rugby fora de Lisboa e mesmo até em Lisboa mais importante que o dinheiro é a CAROLICE. Indiquem-me um nome dum clube instituído actualmente que não tenho sobretudo à pala da carolice de um ou varios elementos. Indiquem-me U só que tenha sobrevivido à custa duma organização profissional superior, daquelas que são extraordinárias a apresentarem projectos no papel, mas que depois, o tal trabalho de campo e volto a referir CAMPO, é que a porca torce o rabo. Ir para a chuva para o sol, aturar os Pais, mendigar transportes, trabalhar num vão de escadas ou no reservado dum café, ver desaparecer amigos que vão para outras paragens mais agradáveis isso sim, isso é que dá trabalho. E quando resulta esses carolas muitas vezes são marginalizados, mas ficam com o sentimento de que a obra sobreviveu. Também vos dou dezenas de exemplos por esse país fora. E na parte final só para vos dizer que depois de tudo, esses mesmos clubes, agora já dirigidos mais profissionalmente sentem que lhes falta aí sim, uma Federaçao que pense mais neles do que nas selecções. Mas aí, CALMINHA, que não se queixem, pois quem elege as Direcoes da Federaçao são os clubes....

Anónimo disse...

Concordo com o comentario anterior. Entre um projecto dirigido por um Carola e um muito bem delineado e todo bonito em power point, deixem-me dizer-lhes que aposto no carola. Alguns até são teimosos e chatos até dizer chega, mas são estes que vencem....

Anónimo disse...

Concordo com a ideia de que nada é melhor do que verdadeiros carolas para levar um projecto para a frente.

Mas continuo a perguntar aos clubes que não quiseram saber dos projectos de formação organizados pela ARS (mas extensíveis a todo o país): em relação à formação, CONCRETAMENTE, que apoio é que os clubes querem?

Outro projecto como as Escolas do Meu Clube para depois lhe virarem as costas e continuarem a choramingar?

Não há quem responda a esta pergunta?

Luis Canongia Costa disse...

Esclarecer o primeiro anónimo, referi o plano de formação, não apoios. O plano é todos os anos distribuído aos clubes. O trabalho do Henrique Rocha nesta área tem sido de qualidade.

Como resultado do plano de formação, Portugal dispõe atualmente de 414 treinadores credenciados.

Naturalmente concordo que sem carolas (e espírito associativo) não pode haver rugby (ou outro desporto) em Portugal.