2 de agosto de 2013

PEQUENO MORTÁGUA RUGBY COM GRANDES IDEIAS

Mortágua tem seguramente uma das mais pequenas equipas de rugby do país, mas tem também uma estratégia que deveria ser analisada por outros clubes de maior dimensão, não apenas no que respeita às suas soluções para os problemas financeiros, como também pela clareza dos seus objectivos.

Com evidente influência coimbrã, e com os benefícios que daí pode retirar, Carlos Leite é o motor da actividade do clube, que nos dá uma visão especial de como um clube de rugby também pode funcionar, ou de como um pequeno clube pode servir de exemplo e motivação.

Fique a conhecer melhor as linhas que cosem o Morcul Rugby de Mortágua.


Mão de Mestre: Quem é o Carlos Leite no rugby e fora dele?
Carlos Leite: Sou pai de dois jovens atletas. O meu filho que é
internacional sub-20 e joga na equipa sénior da Académica e a minha filha que aderiu mais recentemente à modalidade e joga na equipa sénior feminina da Agrária de Coimbra. 
Depois sou um dos protagonistas na implementação do rugby em Mortágua que é onde trabalho como economista na área do investimento empresarial e do desenvolvimento local. 
Não posso aqui deixar de lembrar o Francisco Fernandes, o Rodrigo Ferreira, o João Fonseca, o Jose Manuel, a Gabriela Correia que estiveram no último ano empenhados no apoio ao rugby de Mortágua.

MdM: Onde nasceste e cresceste e como se deu o primeiro contacto com o rugby?
C.L.: Sou natural de Coimbra e sempre residi em Coimbra. 
Nunca pratiquei desporto de forma continuada, tive contacto com o rugby na escola, fui levado a gostar da modalidade pelo meu filho, já que sempre o acompanhei em treinos e jogos. 
Ele foi levado por amigos, depois de uma passagem pelo ténis e pelo judo.

MdM: O que fizeste no rugby na época que terminou?
C.L.: Ora, eu integrei o rugby e o desporto em geral na minha actividade profissional e vice-versa, a partir daqui ainda não sei o que isto pode gerar. 
Penso que algo de bom, mas o futuro o dirá. 
Eu já trabalhava na área da gestão e criação de empresas e projectos empresariais e sociais, e para poder ajudar o rugby tive de lhe dar uma dimensão diferente (até porque tinha de justificar o meu tempo, que já era escasso). 
Além da gestão das equipas e dos convívios que vamos frequentando, o rugby foi a porta aberta para apoiarmos profissionalmente o desporto e os clubes desportivos em Mortágua. 
Juntando os voluntários do rugby com os profissionais com quem trabalho habitualmente, já aprovámos um financiamento no âmbito do PRODER para aquisição de materiais e equipamentos para os diversos clubes, criamos um website conjunto para a visibilidade dos clubes www.mortaguasport.com, fomos buscar o apoio da Fundação EDP para a criação de uma sala de apoio ao estudo acompanhado de jovens desportistas antes de irem para os treinos e que designamos de "Corpo São, Mente Sã", temos dois projectos europeus em curso com parcerias internacionais (estivemos em Sofia, San Siro, Bilbao, onde o nosso rugby aparece sempre como fazendo a diferença para o que levam de desporto os outros parceiros) e estamos em via de termos um terceiro, tivemos um apoio para estágios no estrangeiro onde levámos treinadores de rugby ao LEINSTER, organizámos recentemente em Mortágua um seminário sobre Novos Financiamentos de Projectos Desportivos apoiado pelo IPDJ e o projecto PRO US ALL, estamos a dinamizar uma conjunto de acções de "desporto para todos" em Mortágua, temos tido o apoio do IEFP para estágios profissionais na área do desporto, candidatámos um plano de acções de formação para as pessoas do desporto (esperamos pela aprovação) e criámos com a Câmara Municipal um fórum do desporto com a participação de todos os clubes locais para a manutenção de linhas estratégicas de actuação local entre todos os agentes desportivos. 

MdM: E como vai ser a próxima época?
C.L.: A actividade de rugby mantém-se até ao escalão de sub 14, participação em torneios e convívios, mas o apoio ao desporto em geral vai continuar a ser muito mais do que o rugby, e não sei neste momento qual a dinâmica que tudo isto pode gerar, nada pode ser feito sem apoio de várias outras pessoas, dos clubes locais e dos meios institucionais.

MdM: Como surge o Rugby de Mortágua e quando?
C.L.: Mortágua é um concelho relativamente pequeno em população e grande em território, fica situado entre Coimbra e Viseu, onde as pessoas rapidamente se conhecem e não é difícil ter um relacionamento próximo com quem decide estratégias locais de desenvolvimento. 
Eu desde que ali trabalho, sempre me vi envolvido com vereadores, presidente de Câmara e outras individualidades locais. Tudo gente boa. 
No ano de 2010, conheci o, na altura, vereador João Fonseca, verificámos que ambos tínhamos uma forte ligação ao rugby da Académica, pelos conhecimentos pessoais e familiares, e a partir daí fomos reconhecendo que o rugby era uma modalidade muito interessante na formação do carácter dos jovens. 
Rapidamente começamos a fazer alguns contactos com o Comité de Rugby do Centro, que nos prometeu ajuda (Rui Carvoeira) e fomos reunindo pessoas na região que quisessem ser promotores da modalidade. 
E curioso, é que muita gente mais velha, tinha como referência um antigo
mortaguense, estudante de medicina, que jogou na primeira equipa da Académica (Ciniro), o que nos ajudou bastante a criar uma ligação do rugby a Mortágua, pelo menos desde a década de 50. 
Tínhamos de ter uma entidade formal que desse cobertura à equipa, e encontramos uma associação jovem (Morcul) com quem estabelecemos uma parceria para três anos, com total autonomia da secção do rugby e cá estamos.... Iniciamos treinos em Setembro de 2010 (sub-8, sub-10 e sub-12), criámos a secção em Fevereiro de 2011 e fomos oficialmente aceites na Federação a 30 de Abril de 2011.

MdM: Qual foi a actividade que o clube teve na época 2012-13?
C.L.: Neste momento temos atletas até ao escalão de sub-14. 
Nem sempre conseguimos ter equipas completas por escalão, mas nem por isso deixamos de participar em todos os encontros regionais e alguns nacionais, por vezes com atletas emprestados por outras equipas. 
E acho que temos feito boa figura. 
Estivemos presentes em todos os torneios regionais de sub-14 (sevens) e mais dois encontros nacionais, o mesmo acontecendo para os escalões sub-8, sub-10 e sub-12. 
Assumimos (com o Comité de Rugby do Centro) a organização de um torneio sub-14 regional em Mortágua com a participação de 16 equipas e mais de 200 atletas. Temos participado em diversas actividades a convite de clubes da região e procuramos fomentar encontros bilaterais para treinos conjuntos.

MdM: Quem foram os seus treinadores?
C.L.: Tivemos o José Manuel Silva como treinador principal e o apoio de outros dois que recentemente participaram em formação de treinadores de 1º grau: Francisco Fernandes e Gabriela Correia. 
Entretanto certificamos quatro dirigentes, o que para o nosso meio é surpreendente.

MdM: Que acções estão previstas para alargar o recrutamento nas camadas jovens? Existe alguma parceria com escolas/estabelecimentos de ensino da região?
C.L.: Com apoio da Fundação EDP, a associação IEBA e Câmara Municipal de Mortágua, estamos envolvidos na dinamização de um espaço de apoio
escolar e lúdico (antiga escola primária) a jovens desportistas do concelho, não apenas rugby, mas de todos os oito desportos federados deste concelho. 
Temos a ideia que o rugby não se implementa e não cria condições isoladamente. 
E nesse sentido estamos a implementar uma estratégia de colaboração conjunta de diversificadas acções onde participam todos os desportos locais, e onde todos podem beneficiar, pelo que ajudamos a lançar um website conjunto, como já referimos, com esse grande objectivo. 
Depois o recrutamento é muito feito porta a porta e nas acções de sensibilização nas AEC's onde vamos frequentemente fazer aulas de rugby.

MdM: Onde decorrem os treinos e os jogos do clube?
C.L.: A Câmara Municipal com a cooperação do Clube de Futebol de Mortágua, disponibilizam o Campo da Gandarada para os nossos treinos e jogos. 
Ainda assim utilizamos frequentemente a relva do Parque Verde do concelho, por ser um local agradável e de maior visibilidade pública.

MdM: Que lições têm sido tiradas da actividade do clube e como vai ser o futuro?
C.L.: O presidente de Grupo Desportivo de Tondela (futebol), um empresário de sucesso na região (grupo Gialmar) dizia-me recentemente que transporta para o clube a sua experiência nas empresas e leva para a gestão das empresas vários ensinamentos que obteve no clube, que de todo, não consegue separar a sua vivência num e outro local. 
De facto é um pouco isto, mais do que uma actividade voluntarista vejo-a como pro-bono acima de tudo, onde vamos gerando experiências que tem sido muito importantes e as utilizamos para efeitos das empresas onde trabalhamos. 
No futuro o clube de rugby vai beneficiar muito das experiências profissionais dos seus directores e com isso irão beneficiar os jovens e o desenvolvimento local em termos mais globais. 
O rugby acaba por ser um pretexto, e onde o verdadeiro texto é a nossa contribuição para uma social futura mais equilibrada e socialmente mais integradora. 
Não precisamos de grandes obras e de grandes apoios financeiros gratuitos, precisamos de investir nas pessoas e o rugby sempre teve esse capacidade de dizer que o "apoio" é fundamental, em campo e fora dele.

MdM: Como é financiada a actividade desportiva do clube? Qual o papel da autarquia neste aspecto?
C.L.: O aspecto do financiamento, é, pelo menos para mim, um dos pontos mais importantes e ao qual temos de dar uma atenção muito especial. 
O clube é pequeno, muito pequeno, mas queremos servir de exemplo em termos de estratégia e atitude nestes aspectos do equilíbrio financeiro. 
A gestão de despesas correntes é básica e não é uma preocupação. 
O que temos assumido é claramente uma estratégia diferente de obtenção de receitas por outras vias que não as normais de outros clubes. 
E que se resume a procurar alternativas de financiamento que não dependem do apoio financeiro da Câmara (que o dá e que nós agradecemos, para mais é das Câmaras que paga a tempo e horas). 
Numa ligação estreita à associação IEBA, nós estamos claramente à procura de apoios nacionais e europeus para o desporto, temos uma estratégia para fazer formação financiada e homologada e procuramos novas situações por via do fundraising e mecenato de grande instituições. 
Numa estratégia de não servir apenas o rugby mas o desporto local em geral.

MdM: Qual o papel das empresas da região?
C.L.: Para obter o apoio do meio empresarial é preciso conhecer o
empresário ou alguém dentro da empresa que nos abra as portas. 
Por outro lado é preciso que o projecto desportivo tenha impacto e possibilite algum retorno para a empresa. 
No nosso caso até conhecemos bem o meio empresarial, mas não conseguimos justificar ainda a valia do projecto, com potencial de retorno. 
Vamos lá chegar um dia, ainda temos algum caminho a trilhar para convencer empresas a apoiarem-nos de forma sistemática. 
É sempre mais fácil apoiar o futebol.

MdM: Para a época 2013-14 quais os seus principais objectivos desportivos?
C.L.: Os nossos objectivos são muito mais sociais do que desportivos. 
Pretendemos utilizar este desporto como um veículo de passar algumas mensagens para os jovens, para a população e para outros agentes desportivos. Não temos uma grande "pressão" para aumentar o numero de atletas ou para termos mais escalões funcionar. 
Se isso acontecer, será de forma muito natural e apenas porque nos olham localmente como um bom projecto para os jovens frequentarem e para crescerem em "corpo são e mente sã".

MdM: Quem vão ser os treinadores do clube para a próxima época?
C.L.: Nós temos a facilidade de estarmos próximos de Coimbra, onde a cultura do rugby tem aumentado de ano para ano. 
Temos conseguido apoio técnico pontual decorrente da amizade do Jaime Carvalho, do João Alberty ou do Rui Carvoeira. 
Temos ainda uma excelente relação com a Bairrada, Tondela, Viseu e Lousã. Queremos manter o nosso treinador principal o José Manuel Silva e proporcionar formação inicial a mais jovens interessados locais.

MdM: Quem quiser jogar rugby no Rugby de Mortágua o que deve fazer?
C.L.: Os nossos contactos estão disponíveis em www.mortaguasport.com/rugby e a nossa sede é no edifício do IEBA-Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais no Parque Industrial em Mortágua.

3 comentários:

Anónimo disse...

Projecto muito interessante, a ser seguido com toda a atenção. Este projecto considero-o mesmo excitante.

Se a este projeto adicionarmos o do Groundlink Caldas, que é diferente mas que ao mesmo tempo tem potos de contacto e o da Lousã que pode ser tudo o que o empresário que os apoia quiser mas que já provou que é um projecto consistente e sustentado. Temos então três projectos na zona Centro que a médio prazo podem facilmente fazer CENTRAR o CENTRO de Gravidade do Rugby nacional. A Académica terá que liderar e fazer valer a sua enorme qualidade e história e que é permanentemente abafada por um certo clube de Lisboa.

João Quintela disse...

Muito bom. Tenho falado frequentemente com o Carlos Leite e sempre me impressionou a clareza do discurso e acima de tudo a forma muito pouco Marialva de ver o Rugby. Desejo-lhe toda a sorte do mundo…

Paulo Fontes disse...

Parabéns pelo projeto. Foi um prazer poder participar convosco nas atividades dos miúdos, Contem com o Rugby da Universidade de Aveiro para a próxima época.

Abraço

Paulo Fontes