31 de dezembro de 2015

PARA O RUGBY PORTUGUÊS O FUTURO JÁ COMEÇOU

Como habitualmente esta época do ano é reservada ao balanço do ano que finda e ao anunciar dos desejos que temos para o ano que vai começar, mas este ano tem sido particularmente difícil entrar no tema.

Nunca gostámos de falar dos actores que já passaram, e com as eleições a acontecerem mais cedo desta vez, com a entrada de nova gerência antes do final do ano civil, é com quase nenhuma vontade que falaremos do passado, pois queremos antes acreditar no futuro, mesmo que ele já tenha começado.


Mas teremos que fazer uma rápida evocação para situar o nosso rugby, e ajudar a que todos tenham perfeita consciência da situação em que nos encontramos.
Não falaremos das questões financeiras, já que existe muito nevoeiro na zona e só se pode esperar que a auditoria anunciada por Cassiano Neves, seja levada a efeito com rigor e sobretudo com transparência.
Não encontramos qualquer razão para que os números reais das finanças federativas continuem em segredo, já que a própria natureza associativa da Federação, e o seu estatuto de Utilidade Pública, parecem apontar para a sua publicidade, que deveria ser concretizada com balancetes mensais, acessíveis a todos, e contas anuais detalhadas, simplificadas na sua forma, para que não seja necessário um Phd em economia e finanças, para as entender.

Ao contrário de muitas sociedades comerciais, em que se compreende que haja interesse em esconder elementos - sem levantar a questão da legitimidade do acto - numa associação de clubes - amadores! - que tem obrigação de prestar contas aos seus associados e ao Estado - razão essencial para manter a imprescindível Utilidade Pública - não faz qualquer sentido que existam dúvidas quanto à aplicação dos seus recursos financeiros.

Esperemos que esta que foi uma prática seguida até Novembro de 2015 mude, e que o site federativo seja ampliado com um espaço de informação clara sobre a origem e o destino dos seus meios, dos seus tostões.

Mas falemos então da área desportiva, afinal a verdadeira razão de ser da existência do organismo federativo, que atravessa uma crise nunca antes sentida no rugby português.

Aqui mais uma vez se utilizaram artifícios para nos fazer crer que o rugby nacional cresceu, mas, como já referimos em diversos artigos publicados nestas páginas - aqui, por exemplo - a verdade é outra, e se existem alguns clubes que conseguiram manter as aparências, e conservar uma posição de destaque, a verdade é que a maioria dos clubes não tem capacidade de apresentar uma equipa principal e uma segunda equipa, seja ela chamada de reservas, equipa B ou Sub-escalão.

Basta olhar para o desnível dos resultados do hoje chamado campeonato do sub-escalão senior, do número de clubes que mantém duas equipas, e da necessidade de fazer parar uma delas quando a outra enfrenta desafios superiores, como acontece com o Direito neste momento - e a equipa de Monsanto é certamente uma das principais candidatas à coroa da formação nacional!

Não há mais clubes, não há mais equipas seniores, não há mais jogadores.
A contabilização de jogadores dos escalões de formação - abaixo do Sub-16 - é uma estratégia para inglês ver, e para esconder um dos principais problemas que o rugby nacional atravessa há 35 anos, e que se resume em duas palavras: não existe relação quantitativa entre o rugby de formação e o rugby de competição.
Continua a existir, como já existia nos anos 80, um buraco negro na transição de miúdos para homens, que não houve a coragem de enfrentar e que mantém a quantidade de jogadores seniores sem grande variação nas últimas décadas.

E se olharmos para um mapa da actividade da nossa modalidade pelo país fora, é grande o equilíbrio entre pólos novos e aqueles que desapareceram nos últimos 15 anos.
Na verdade perderam-se (10) equipas como o Caparica, UTAD, Vilamoura, Rugby Clube de Coimbra, ISEP/REI, Amora, Fabril, Universidade Lusófona, Tomar e Marinhense, e surgiu praticamente o mesmo número (9), como o Borba (2013),  United XV (2001 - Oeiras, Dark Horses), Vitória de Setúbal (2000), Força XV (1998 - Scalibur, Ídolos da Praça), Ubuntu (2012 - Kellermann), Prazer de Jogar (2007 - Lousada), Braga (2011), Famalicão (2006) e Guimarães (2008).

(Entre parênteses o ano da primeira participação e outros nomes utilizados - a lista foi elaborada sem grande preocupação de rigor, pode conter alguma incorrecção, mas mesmo que isso aconteça não será significativo em relação ao que se pretende mostrar - que não houve crescimento)

Mas nem tudo foi mau nestes últimos anos, já que o alargamento das duas principais divisões - curiosamente uma medida tomada contra a vontade de Amado da Silva! - fez com que um grupo de 20 equipas tenham tido nos últimos dois anos uma actividade competitiva com pés e cabeça, o que nunca acontecera antes.
Falta agora completar o edifício competitivo nacional com a organização da Segundona, o terceiro nível indispensável para que se faça a mistura entre rugby de competição e rugby de diversão, e também aí já demos o pontapé de saída aqui...

E falta sobretudo uma opção clara pelo desenvolvimento do rugby dos clubes, já que a aposta das duas anteriores gestões, centrada na preparação de um grupo restrito de jogadores, com Centros de Alto Rendimento concentrados nos locais habituais - Lisboa, Lisboa, Lisboa, Coimbra e Porto - deu no que deu:

Portugal ocupa hoje o 27º lugar do ranking da World Rugby e ainda pode agradecer uma vitória providencial sobre o Zimbabwé em Novembro, que lhe permitiu recuperar alguns lugares, embora seja bom lembrar que Amado da Silva entrou na FPR em Janeiro de 2010, e nessa altura Portugal ocupava a 21ª posição.
Se não contarmos com as semanas em que ocupou o 29º lugar, esta é a pior classificação de sempre de Portugal.

Se somarmos a este recorde, os cinco treinadores que dirigiram a equipa durante a sua presidência de quase cinco anos, Amado da Silva é um verdadeiro campeão!

(Acaba de ser anunciada pela FPR, a cessação de funções de Olivier Baragnon, sendo que A inexistência de um contrato em vigor, aliada a divergências antecipadas sob o eventual rumo a seguir pelas Seleções Nacionais, são os principais motivos para o não prolongamento da ligação entre o técnico e a FPR.)

Quanto à equipa nacional de sevens, a situação é semelhante, já que não conseguimos o apuramento para os Jogos Olímpicos, e mesmo tendo vencido dois campeonatos da Europa em 2010 e 2011 (além destes venceu em 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2008, oito no total), foi claro o abandono a que a equipa foi votada, acabando o GPS 2015 na sexta posição, a sua pior desde que o Circuito Europeu foi instituído.

Também no Campeonato do Mundo Portugal teve em 2013 o pior comportamento desde 1997, com 1 vitória e 3 derrotas, depois de obter 3 vitórias, 1 empate e 4 derrotas em 2001, 4 vitórias e 4 derrotas em 2005, 2 vitórias e 3 derrotas em 2009.
Pior só em 1993 quando não conseguiu o apuramento para o Campeonato, e em 1997, quando sofreu 3 derrotas.

Foi claro em particular nestas últimas épocas, que Portugal não tem numero suficiente de jogadores para alimentar duas selecções nacionais de seniores, uma de XV, outra de Sevens, e que apenas consegue algum equilíbrio no Europeu de XV quando utiliza o contingente luso-francês em toda a sua plenitude.

Poderíamos citar diversos exemplos de jogadores praticamente pescados na bancada para ilustrar o que dizemos, mas fomos fazendo isso ao longo dos anos, como por exemplo aqui.

Então, perante tudo isto não resta qualquer dúvida que a aposta de Dídio de Aguiar, primeiro, e de Amado da Silva depois, foram equivocadas e conduziram Portugal ao seu pior momento internacional desde os anos 80 do século passado, estando agora nas mãos de Cassiano Neves e sua equipa o estabelecimento dos critérios que melhor defendem os interesses do rugby nacional, e que passam claramente, na nossa opinião, por uma aposta no crescimento e na expansão territorial, obviamente sem abandonar as nossas representações nacionais!

Então, depois deste olhar triste pelo campo abandonado que Amado da Silva nos deixou, resta-nos esperar que Cassiano Neves tenha o bom senso e a sabedoria de tomar as decisões que possam conduzir o rugby nacional a um crescimento sustentado, embora garantindo a permanência na Divisão A do Europeu de XV e também como equipa residente do Circuito Mundial de Sevens.

Para 2016 estes são os grandes objectivos do rugby português, no nosso ponto de vista, ao que é importante juntar as melhores condições para que a nossa selecção feminina de sevens participe no torneio final de qualificação olímpica com honra e competência, pois vontade e dedicação as nossas meninas já mostraram ter de sobra!

Finalmente um pedido que pode parecer extemporâneo, mas que importa ficar registado para que não se diga no futuro que nunca se falou nisso.
Não pretendemos ser originais - sabemos que o assunto já foi falado por diversas vezes e em diversos níveis - mas assim fica escrito e badalado publicamente.

Dado que se quebrou o paradigma que mandava que os mandatos federativos correspondessem a anos civis completos, então será bastante vantajoso que as eleições futuras tenham lugar no final de uma época desportiva - entre Junho e Julho - e que a nova administração tome posse imediatamente - Julho/Agosto - para que as medidas em relação à nova época desportiva sejam já tomadas pelos novos eleitos, evitando situações como as acontecidas este ano com as nomeações das equipas técnicas e a decisão sobre a participação em determinadas competições.

Então, e para concluir, damos a Cassiano Neves o benefício da dúvida e ficamos a aguardar as decisões estratégicas que ele vai tomar, para podermos falar sobre a sua gestão - como fizemos em 2010 com Amado da Silva, e só deixámos de fazer quando o anterior presidente enveredou pela mentira, pelo embuste e pelo experimentalismo inconsequente.

2 comentários:

José Lopes disse...

No interesse do rugby nacional julgo ser conveniente compreendermos todos o facto de sendo esta modalidade quase inteiramente constituida por amadores isso reduzirá sempre de uma forma muito significativa o número de atletas disponíveis para os escalões de sub 18 e de seniores.
Como pai de um jogador que seguiu os escalões de formação atingindo algum nível de proficiência reconhecida tive oportunidade de verificar em 1ª mão as dificuldades com que um jogador que pretenda manter-se competitivo tem de lidar. A exigência de três treinos de campo semanais acrescidos de pelo menos dois de ginásio para potenciar a hipertrofia muscular (válido para qualquer posição e tipologia física) acrescidos de mais um dia para jogar torna muito difícil a manutenção como atleta tendo de considerar a obtenção das médias para acesso ao ensino superior e a dificuldade de ter/manter uma vida social como se espera de um(a) jovem com 17/18 anos.
Para os poucos que sobrevivam a essa fase coloca-se depois em primeiro lugar o facto de a esmagadora maioria dos clubes não terem "espaço" nos seus plantéis para absorverem mais cinco ou dez novos jogadores a cada época deixando-os sem jogar e desmotivados. Em segundo lugar o facto de nem todas as actividades profissionais aceitarem de bom grado os hematomas e pequenas lesões que são inevitáveis neste nosso desporto e nem todos conseguem manter a disciplina necessária para renunciar a quase todos os prazeres da vida em troca de uma "carreira".
Alguns demonstram vontade de regressar e um pequeno número de entre eles vão efectivamente fazê-lo algures pelos últimos anos da sua segunda década mas de um ponto de vista da alta competição poucos (nenhuns?) serão úteis para mais do que equipas dos segundo e terceiro escalões.
Tornando este longo discurso coerente numa proposta possível de realizar eu acredito que não haverá aumento da base de atletas disponíveis para os escalões de competição sem que se instituam "Academias" onde os jovens possam ser acompanhados na vertente de preparação profissional/estudos-exames. Enquanto o nosso rugby se mantiver como um desporto para quem pode pagar não vai evoluir.

Esta opinião é demasiado longa para publicar mas gostei de a comunicar a si.

Antonio Freitas disse...

É preciso estar pouco atento à realidade nacional , os resultados foram-se conseguidos no incio de uma década de transição de amador para profissional no rugby internacional que ao esta ir avançando estes comeram a cair . Acentuou-se depois da crise em Portugal de 2011, os clubes deixaram de contratar jogadores profissionais estrangeiros que inundavam nos clubes que melhoravam o nível do campeonato e selecção nacional .

Falar de desastroso da direcção do Didio e Amado da Silva é também contraditório visto ter-se também neste período os melhores resultados de sempre para o rugby nacional , quer se goste ou não , a queda do nível não é só das selecções , se não veja-se os clubes nacionais como o CDUL E GDD quando jogaram com equipas russas , espanholas , italianas e alemãs perderam todos os jogos .

O não saber que este é um sinal dos tempos , em que o maior poder financeiro de outros países e jogadores com outro potencial físico e vontade faz toda a diferença , o potencial de crescimento do rugby português está esgotado e neste momento o único sentido é descendente .

Pensar que no XV e em especial nos VII poderemos competir é uma ilusão , quando estes últimos passaram a Olímpicos o investimento e atenção de todos os países subiu e nós não temos nem dinheiro nem jogadores para poder competir.

Para terminar , pegar nas palavras deste último comentário , de um pai que descreve claramente a realidade dos jovens praticantes em Portugal , classe alta e favorecida , e que na sua maioria naturalmente a formação académica e profissional está por cima da desportiva .