17 de janeiro de 2019

"SEM BASE ALARGADA NÃO É POSSÍVEL ALIMENTAR AS EQUIPAS DE COMPETIÇÃO"

No ano em que completa 51 anos no rugby decidimos entrevistar Jorge Sérgio Franco um dos treinadores da velha-guarda do rugby português ainda em atividade, e a sua afirmação de que sem base alargada não é possível alimentar as equipas de competição, diz tudo sobre a ideia que Sérgio Franco tem sobre como se deve desenvolver um clube de rugby.
O Mão de Mestre volta hoje com mais uma entrevista - são mais de 70 ao longo dos últimos anos - com o destaque na carreira de um dos mais importantes treinadores portugueses, que ao longo dos últimos 51 anos tem servido o rugby nacional.

Com a Académica no coração, Jorge Sérgio Franco teve um trabalho de importância decisiva no Benfica, e a sua passagem pela Lousã merece também o nosso destaque.
Mas o que ressalta prioritariamente desta entrevista - que, repetimos, faz parte de um conjunto de mais de 70 que pode ler nas nossas página, bastando para tal pesquisar na etiqueta entrevista - é a sua visão sobre a importância dos escalões de formação no sucesso de um clube que pretenda percorrer a via da competição séria e sustentada.

Jorge Sérgio Franco - o Jorginho - nasceu no dia 4 de Julho de 1954 em Lagoa (Algarve) e é funcionário da Câmara Municipal de Coimbra (Divisão de Desporto) e treinador de rugby.

Mão de Mestre (MdM): Como foi a tua vida de desportista?
Jorge Sérgio Franco (JSF): Até aos 14 anos pratiquei judo, andebol, natação, ginástica e, como todos os miúdos, futebol de forma informal. Com a mesma idade iniciei a prática do Rugby, levado por um colega de escola e pouco tempo depois seria responsável pelo núcleo de Rugby dessa escola. Uma ideia de um dos professores de Educação Física, o Tony Cabral Fernandes, que, anos mais tarde, seria companheiro de equipa na Académica e também na Seleção Nacional.

MdM: Que épocas te marcaram mais como jogador?
JSF: As épocas que mais me marcaram como jogador foi a de 1973/74 em que fui internacional sénior, aos 19 anos, no jogo Alemanha-Portugal, em Hanôver, bem como aquelas em que a Académica alcançou as suas primeiras vitórias em competições nacionais. O Torneio Nacional de Abertura, com o Manel da “Quinta” como treinador, a Taça de Portugal, em que a equipa era orientada por uma comissão técnica constituída pelos meus colegas Tony Cabral Fernandes, Soares e Álvaro Santos, e, posteriormente, o 1º Campeonato Nacional, tendo como treinador o César Pegado.

MdM: Quando e por que razão decidiste ser treinador?
JSF: Logo no ano em que deixei de jogar o José Varandas, que era meu colega de equipa e fazia na altura parte da Direção da secção, como não havia nenhum treinador interessado, lembrou-se de me convidar para frequentar um curso de treinadores em França - Clermont-Ferrand. Provavelmente é a ele que devo o facto de me ter tornado treinador.
Na altura não havia formação de treinadores em Portugal então, durante esses anos iniciais, frequentei três cursos em França (um deles no INSEP – Instituto do Desporto de Paris), um em Inglaterra, na Universidade de Loughborough, coordenado pelo Jim Greenwood autor do Total Rugby e do Think Rugby obras que li e reli vezes sem conta. Posteriormente surgiram traduções destes dois livros feitas pela Federação Espanhola. Nessa época, para além de alguma documentação técnica que apareceu nas primeiras edições da Rugby Revista, existia apenas em português o ABC do Rugby, tradução feita pelo Engº Vasco Pinto de Magalhães, de um pequeno livro australiano que ainda hoje guardo. Procuro atualizar-me, sempre que possível e tenho o título profissional de treinador de desporto (Rugby Grau III).

MdM: Fala-me do teu percurso, dizendo-me quais os clubes por onde passaste e resultados alcançados.
JSF: Iniciei a carreira de treinador na época 1981/82 com uma equipa de juvenis da AAC. De 1986 a 1988 treinei uma equipa de Iniciados do Sport Lisboa e Benfica, com o Carlos Nobre como dirigente e o Delfim Barreira como coordenador do rugby juvenil, que nessas duas épocas não perdeu nenhum jogo. Vi, com mágoa, o afastamento dos lugares cimeiros do rugby português de um dos meus clubes do coração fruto da falta de investimento na formação durante um largo período de tempo. O Benfica continua, no entanto, a ser o 3º clube com mais campeonatos nacionais (9) e, estou certo, um destes dias voltará à divisão principal.
Regressei, na época 1988/89, à Académica onde assumi a equipa principal que conquistou a primeira edição da Super Taça precisamente nessa época. Nas épocas que treinei a equipa principal contribuí, no rugby de XV, para a conquista de 1 Taça Ibérica, 2 Super Taças, 1 Campeonato Nacional (Divisão de Honra), 2 Campeonatos Nacionais da 1ª Divisão, 4 Taças de Portugal, 3 Taças Primavera da FPR e 1 segundo lugar na Taça da Europa para Clubes Universitários. As minhas equipas conquistaram ainda 1 Taça Ibérica de Juniores e títulos em todos os escalões etários. Treinei várias Seleções Regionais e Inter Regionais, destacando-se a participação na Taça da Europa das Regiões em 2002 com a seleção Norte/Centro a alcançar a 1/2 final depois de eliminar seleções da Geórgia, País de Gales, França, Suíça e Espanha. Essa seleção regional, orientada por mim e pelo Jaime Rocha, venceu, em dois anos consecutivos, a seleção de Lisboa tendo sido assim apurada para disputar essa competição europeia. Muitos jogadores do Norte e Centro começaram a integrar regularmente as convocatórias das seleções nacionais e alguns deles acabariam por representar Portugal no Campeonato do Mundo de 2007.
Cheguei a Treinador Nacional Adjunto, pela iniciativa do Manuel Cabral, coordenador das seleções nacionais em 1993.
Treinador Principal das seleções nacionais de sub 19, de 1998 a 2005, e sub 20 de 2004 a 2005, que
participaram em 6 Campeonatos do Mundo de sub 19, mais especificamente 2 em França: Paris e Morteau; País de Gales: Tenby e Cardif; Itália: Roma; Chile: Santiago do Chile e África do Sul: Durban; 4 Torneios das 3 Nações (País de Gales, Espanha e Portugal) e 2 Torneios das 4 Nações (País de Gales, Itália, Espanha e Portugal), bem como em 2 Campeonatos da Europa de sub 20 disputados na Roménia e em Espanha
Tive a grande honra de ser considerado, em 1997, Treinador do Ano da Federação Portuguesa de Rugby.
De 2003 a 2006 fui treinador da equipa Sénior do Rugby Clube da Lousã. Uma experiência muito positiva onde vivi a realidade de um clube de uma pequena vila, com uma população de 17000 habitantes mas que tem conseguido, graças ao dinamismo dos seus dirigentes, manter todos os escalões em atividade ao longo dos anos. Regressei à Académica, na época 2007/2008, desenvolvendo um projeto, paralelo ao rugby de XV, focado nos sevens que daria resultados muito significativos, designadamente três 1ºs lugares, três 2ºs, dois 3ºs no Campeonato Nacional da FPR e cinco títulos nacionais da FADU. Um dos títulos de 7’s a equipa foi liderada pelo Rui Carvoeira que é um dos treinador em Portugal que gosta e mantém forte ligação aos sevens. Também a nível internacional os “pretos” alcançaram resultados muitos significativos nos 7’s, designadamente o Campeonato da Europa Universitário (Córdoba 2010), sendo este o 1º título universitário europeu para Portugal de uma modalidade desportiva coletiva. No ano anterior a equipa já tinha sido vice campeã em Bristol. Em 2017, no último ano em que fui responsável pela equipa de sevens da AAC, voltamos a ser vice campeões nacionais perdendo para o CDUL numa das últimas ações do jogo da final. Graças a este projeto, que iniciei em 2007, vários jogadores da Académica acabariam por participar no Circuito Mundial e o Rui Rodrigues, o Francisco Serra e o meu filho acabariam por fazer parte da seleção que conquistou o único título mundial do rugby português. Refiro-me ao Campeonato do Mundo Universitário de 2010 disputado no Porto.

MdM: Que épocas te marcaram mais enquanto treinador e porquê?
JSF: Pela negativa o jogo que me deixa mais mágoa é o da final da taça de Portugal de 1997/98, em que perdemos com Agronomia por 33-15. A Académica seria o primeiro clube português a vencer 4 taças seguidas se tivesse vencido esse jogo. Nesse ano vencemos em Coimbra a Agronomia por 55-5. O jogo da final coincidiu com um largo período sem competição, devido aos compromissos da seleção nacional.
Este é um bom exemplo de uma equipa que se prepara bem e de outra que pensa que as camisolas ganham jogos por si só.
Enquanto a Agronomia aproveitou para fazer uma digressão à África do Sul, os jogadores da Académica divertiam-se na queima das fitas que calhou precisamente na semana que antecedeu a final.
Na época de 1996/97 a equipa venceu a Taça Ibérica, Campeonato Nacional, Taça de Portugal, Super Taça, Taça Primavera e Torneio de sevens de Coimbra. Esta foi aquela que mais me marcou pela positiva.
Mais recentemente, em 2010, a época de sevens, com a equipa a vencer todas as competições em que participou, designadamente os Campeonatos da FPR e FADU, o Campeonato da Europa Universitário e o Torneio da Queima das Fitas, foi também de excelência.

MdM: Afastado da competição tens alguma ambição em especial no que diz respeito à tua carreira?
JSF: Em relação à minha carreira de treinador gostaria que fosse longa pois não me vejo sem ser ligado ao rugby. Esta época o Paulo Picão, presidente da secção, lançou-me o desafio de coordenar a escola de rugby da AAC, dos sub 8 aos sub 12.
Esta é uma responsabilidade e desafio tremendos pois sem base alargada, com uma quantidade significativa de jogadores na Escola de Rugby, não é possível alimentar as equipas de competição. Os jogadores são, como todos sabemos, o principal capital de um clube amador, sem eles não há clube. Isto obriga os treinadores e os dirigentes a terem uma preocupação constante focada no interesse dos jogadores. Por exemplo, se alguém abandona temos de saber o motivo e, se estiver nas nossas mãos, fazer tudo para que regresse. Nos últimos anos temos tido imensas dificuldades em competir com as nossas equipas dos sub 14 aos sub 18 por falta de jogadores. Nos escalões que coordeno conseguimos passar, esta época, de 57 para 67 jogadores inscritos. Continua a ser muito pouco em comparação com os principais clubes da Divisão de Honra. O CDUL tem 116 registos, Agronomia 114, Direito 113 e Belenenses 93. Cascais tem 67 e o Técnico e CDUP 39 e 37 respetivamente. O nosso objetivo, a médio prazo, é ultrapassarmos os 100 jogadores. Temos consciência de que este é um objetivo muito difícil de alcançar. Basta referir que para termos um crescimento idêntico ao deste ano, dado que na próxima época sobem 11 jovens para os sub 14, caso não haja nenhum abandono, teremos de conseguir inscrever mais 21 jogadores. Este crescimento contínuo só será viável através de projetos integrados entre as Autarquias, Federações/Associações Regionais, Desporto Escolar e os Clubes. A Câmara Municipal de Coimbra tem um projeto muito interessante que pretende envolver estas entidades e que contempla o rugby. Pessoalmente deposito grande esperança neste projeto.
Neste momento estou empenhado na Escola de Rugby da AAC mas claro que gostaria de voltar um dia a treinar equipas de competição. Lembro que o último título de campeão nacional, alcançado por uma equipa da Académica, os sub 18 em 2014, a equipa era liderado por mim e pelo Luís Sequeira. Este foi um título que nos deu enorme satisfação porque era totalmente improvável que uma equipa com apenas um jogador na seleção de sub 18, quando havia recorrentemente sete, seis e cinco jogadores de outro clube nas convocatórias, fosse campeã. Ou o selecionador não possuía um dos requisitos mais importantes para a função, que é a capacidade de escolher os melhores jogadores, ou em Coimbra fez-se um trabalho extraordinário com jogadores medianos.

MdM: Como vês o atual momento da Académica?
JSF: O que mais me preocupa no Rugby da Académica é o facto de existir atualmente uma pirâmide invertida. Temos 67 jogadores na base, 75 no meio e 74 no topo. Este é um problema que está identificado e que tem tido influência na fraca prestação competitiva das nossas equipas até aos sub 18. Relativamente ao rugby sénior, apesar da nossa equipa principal se encontrar atualmente em 7º lugar, temos apresentado um bom nível e alguns jogos que perdemos foram muito equilibrados. Passamos de 44 jogadores inscritos, na época de 2015/16, para 74 em 2019 e a ter duas equipas séniores em competição desde 2016/17. Voltamos a vencer uma das principais competições no rugby de XV, o que já não acontecia há 14 anos, e na última época vencemos todos os nossos adversários. Estou certo de que mais tarde ou mais cedo iremos superar as expectativas.
Estamos a procurar aumentar de forma consistente o número de jogadores na iniciação onde os objetivos são prioritariamente educativos e formativos. Temos uma equipa técnica muito interessante constituída por duas meninas licenciadas em Ensino da Educação Física, nos sub 8, a Marina Pedrosa e a Joana Baptista que estão a fazer um trabalho meritório; o Rui Oliveira, treinador com título profissional de grau III, com enorme experiência e um percurso longo e notável no treino desportivo e o João Neto, ex jogador também com grande talento para o ensino do rugby, nos sub 10. O João Costa, árbitro internacional, ex capitão da equipa sénior que tem demonstrado qualidades pedagógicas muito interessantes assegura, com o meu apoio, a atividades dos sub 12.

MdM: Na tua opinião qual é o maior defeito e principal virtude de um treinador?
JSF: Reconheço os meus defeitos e virtudes. Sei que, também nesta área, não há ninguém perfeito. Julgo que o melhor dom de um treinador é saber distinguir o essencial do acessório, só assim conseguirá preparar da melhor forma os seus jogadores para todos os desafios que lhes irão ser impostos. Para além disto, da competência pedagógica e da capacidade de escolha e seleção dos jogadores, realço a capacidade de definir o plano de jogo, jogo a jogo, em função do adversário.
Relativamente ao maior defeito, aponto a falta de liderança, bem como a falta de coerência comportamental a todos os níveis (pedagógico, disciplinar, etc.). Um treinador ou um líder em qualquer outra área só conquistará credibilidade se for coerente.
Há por aí muita gente que confunde liderança com autoritarismo bacoco. A liderança está também relacionada com o sucesso ou insucesso, com conseguirmos ou não os objetivos definidos.

MdM: Um desejo para o rugby português.
JSF: Em relação ao rugby em geral gostaria de ver um crescimento efetivo em todo o país, de norte a sul, com mais clubes, muito mais jogadores, dirigentes, árbitros e instalações desportivas exclusivas para o rugby. Em termos competitivos gostava de voltar a ver a minha Académica a conquistar a taça ibérica e Portugal a participar no Campeonato do Mundo.

1 comentário:

Vasile Constantin disse...

Subscrevo inteiramente para as considerações do amigo Sergio, pessoa inobilada com a paixão para o jogo de Rugby e fortalecidos por uma larga experiência antrenorala. Parabéns a maestria de dar exceleentes qualidades humanas ao profissão antrenorale, de que tanto tem beneficiado a Academica e o rugby portuguez. Amicaveis votos de boa saúde e felicidade na vida.